quarta-feira, 25 de março de 2026

35 anos de “Arise”, o álbum que consolidou o SEPULTURA no cenário internacional

 Lançado em 1991, Arise marcou um momento de virada na trajetória do Sepultura. O disco não apenas ampliou o alcance internacional do grupo mineiro, como também ajudou a definir novos rumos para o thrash metal no início da década de 1990. Três décadas e meia depois, o trabalho segue sendo apontado como um dos registros mais importantes da história do thrash metal.

Gravado no Morrisound Recording, na Flórida — estúdio conhecido por lapidar nomes do death metal — o álbum foi produzido por Scott Burns em parceria com a própria banda. O resultado foi um som mais refinado do que em Beneath the Remains (1989), mas sem abrir mão da agressividade característica do quarteto. Pelo contrário: Arise elevou o nível técnico e trouxe uma abordagem mais madura nas composições.


Logo na faixa-título, Arise, o Sepultura apresenta um cartão de visitas direto: riffs velozes, bateria precisa e vocais que mesclam agressividade com maior clareza. A música se tornou um dos hinos definitivos da banda, presença constante em shows até hoje. Na sequência, Dead Embryonic Cells reforça essa identidade com mudanças de andamento e um refrão marcante, evidenciando uma evolução na construção das músicas.

Outro destaque é Desperate Cry, que ultrapassa os seis minutos e demonstra ambição estrutural, com passagens mais cadenciadas e um clima sombrio. Já Murder e Altered State exploram variações rítmicas e ajudam a compor a diversidade do álbum. O disco ainda inclui Under Siege (Regnum Irae), uma das faixas mais intensas do repertório, e Infected Voice, que reforça o caráter político e crítico presente nas letras.

Falando em temática, Arise apresenta um Sepultura mais atento a questões sociais, religiosas e existenciais. As letras abordam manipulação, opressão e conflitos internos, refletindo um período de amadurecimento não apenas musical, mas também ideológico da banda.

A formação — Max Cavalera (vocal e guitarra), Andreas Kisser (guitarra), Paulo Jr. (baixo) e Igor Cavalera (bateria) — atingiu aqui um entrosamento que se tornaria referência. A precisão de Igor (ainda com apenas um “g” na grafia) na bateria, combinada com os riffs afiados de Kisser e Max, resultou em um dos momentos mais coesos do grupo.


Rock in Rio 1991: afirmação diante de uma multidão

Pouco depois da conclusão das gravações, mas antes mesmo do lançamento oficial de Arise, o Sepultura já se preparava para o maior desafio de sua carreira até aquele momento: subir ao palco do Rock in Rio II.

Sem o álbum oficial ainda disponível ao público, a banda recorreu a uma versão prévia com versões preliminares das músicas, utilizando rough mixes. Essas versões apresentavam diferenças em relação ao resultado definitivo — timbres menos lapidados, mixagem em estágio inicial e ausência de alguns refinamentos de estúdio —, mas já evidenciavam a força do novo material.


Diante de um público massivo, o grupo apresentou faixas inéditas como Arise e Dead Embryonic Cells, oferecendo um primeiro contato com o repertório que seria lançado oficialmente pouco depois. Mesmo em estado ainda bruto, as músicas causaram impacto imediato e mostraram que o Sepultura havia dado um salto criativo significativo.

A performance no Rock in Rio II, onde o Sepultura dividiu palco com LobãoMegadethQueensrÿcheJudas Priest Guns N’ Roses, não apenas comprovou a potência do novo material, como também consolidou a reputação dos “jungle boys” como uma força ao vivo. O show marcou um momento simbólico: o grupo que havia emergido do underground de Belo Horizonte agora se afirmava diante de uma plateia global, dividindo espaço com nomes de grande alcance.

Em sua biografia My Bloody Roots, de 2013, Max Cavalera comentou sobre a experiência do Sepultura na histórica segunda edição do Rock in Rio:

“Quando tocamos no segundo Rock in Rio, em 23 de janeiro de 1991, Arise estava para ser lançado. Estávamos programados para a mesma noite que o Guns N’ Roses e o Megadeth. O local do evento era o maior estádio de futebol do mundo: o Maracanã. Subimos ao palco às das da tarde. O sol brilhava, fazia 49 graus, muito, muito quente, e estávamos todos de preto. O público se agitava: a galera ia à loucura, era uma reação inacreditável. Receberam aquilo que pediram.

Depois da nossa apresentação, me deitei atrás do palco e olhei para o céu. O público ainda gritava. Me sentia nas nuvens. Não tinha bebido e também não tinha droga alguma no meu corpo: estava completamente careta, mas ainda assim viajando. Pensei: “Está é a maior onda de todas, nenhum tipo de droga poderia provocar o efeito que estou sentindo agora. Esta provavelmente é a melhor sensação que vou ter na vida”. Era como se estivesse atingindo uma espécie de ápice.

Foi um momnto e tanto. Pensei: “É pra isso que vivo. Vou viver por isso e morrer por isso”. Tudo o que tínhamos feito, todo o trabalho que tivemos, todas as noties dorimindo debaixo do palco, todas as coisas pelas quais passamos, tudo tinha valido a pena por aquele único instante. O vazio dentro de mim tinha sido preenchido. Não dá para comprar uma sensação dessas.”

Max também contou sobre o encontro que teve após o show com o cantor Lobão, que havia sido execrado pelos headbangers no dia do metal no Rock in Rio:

“O mais engraçado foi que naquela noite acabei indo a uma festa na casa do Lobão. Pedi desculpas pelo meu público e ele respondeu: “Ah, fica tranquilo! Foi divertido! Tem uns arruaceiros do caralho na galera de vocês. São seus soldados: estão ali por vocês, cara. Eu não tenho isso. Tenho todos esses álbuns de ouro e sou um astro pop gigantesco, mas não tenho todo esse respeito. O dinheiro não compra esse respeito”.


Orgasmatron: o tributo ao Motörhead

Entre as faixas que complementam o universo de Arise, uma das mais lembradas é a versão de Orgasmatron, originalmente gravada pelo Motörhead no álbum homônimo de 1986.

Sepultura incorporou a música como lado B e também em edições posteriores do disco, apresentando uma releitura mais pesada e sombria em relação ao original. Mantendo a essência crítica da composição de Lemmy Kilmister, a banda brasileira intensificou a atmosfera densa da faixa, com guitarras mais encorpadas e uma abordagem vocal mais agressiva.

A escolha por Orgasmatron não foi por acaso. O Motörhead sempre foi uma das principais influências do Sepultura, especialmente na forma direta e crua de fazer metal. O próprio nome da banda foi extraído de uma música do MotörheadDancing On Your Grave (Dançando sobre sua sepultura). Ao revisitar a música, o grupo não apenas prestou homenagem, mas também reforçou a conexão entre o thrash metal e suas raízes mais tradicionais.

A versão acabou se tornando presença frequente no repertório ao vivo da banda nos anos seguintes e foi bastente executada na MTV e, no Brasil, em rádios de rock — algo surpreendente para a época, uma banda tão pesada tocando na programação regular das FMs da época —, ajudando a aproximar ainda mais o público do Sepultura de uma de suas maiores referências.


Henrique Portugal e os sintetizadores em Arise

Um detalhe menos lembrado, mas significativo em Arise, é a participação de Henrique Portugal, responsável por adicionar camadas de sintetizadores e efeitos em trechos específicos do álbum.

Conhecido por seu trabalho com o Skank, o músico contribuiu de forma pontual, inserindo texturas e ambientações discretas que ajudam a ampliar a atmosfera de algumas faixas. Em vez de assumir protagonismo, os sintetizadores aparecem de maneira sutil, quase imperceptível em uma audição desatenta, mas fundamentais para enriquecer o clima mais sombrio e denso do disco.

Essa colaboração mostra que, mesmo em uma fase marcada pela agressividade e pela precisão do thrash metal, o Sepultura já demonstrava abertura para experimentar elementos além do formato tradicional de guitarra, baixo e bateria. É um indicativo precoce da busca por novas sonoridades que a banda desenvolveria de forma mais evidente nos trabalhos seguintes.

A presença de Henrique Portugal também reforça a conexão da banda com músicos brasileiros de diferentes vertentes, ainda que de forma discreta neste momento da carreira.

(Under Siege) Live in Barcelona: o primeiro home video da banda

Lançado em 1991, (Under Siege) Live in Barcelona marcou o primeiro registro oficial em vídeo do Sepultura, capturando a banda em plena ascensão internacional durante a turnê de Arise. Gravado na cidade espanhola, o material apresenta o grupo em um momento decisivo, já com maior projeção fora do Brasil e diante de plateias cada vez mais expressivas na Europa.

O repertório mescla faixas de Arise e Beneath the Remains, refletindo a transição entre duas fases importantes da carreira. Músicas como AriseDead Embryonic CellsInner Self e Mass Hypnosis ajudam a traduzir a intensidade do quarteto ao vivo, com execuções rápidas e uma entrega energética que se tornaria marca registrada.

Mais do que um simples registro de show, o vídeo também tem valor histórico por documentar a consolidação do Sepultura fora do circuito underground. A performance evidencia o entrosamento entre Max CavaleraAndreas KisserPaulo Jr. e Igor Cavalera, além de destacar a força da banda diante de um público europeu já bastante receptivo.

Com estética crua e direta — típica dos registros ao vivo da época —, (Under Siege) Live in Barcelona funciona como um retrato fiel do impacto do Sepultura no início dos anos 1990, ajudando a pavimentar o caminho para a expansão global que viria nos anos seguintes.

Third World Posse: o EP que ampliou o alcance de Arise

Lançado em 1992, Third World Posse é um EP que ajudou a expandir o impacto de Arise fora do Brasil, especialmente no mercado europeu. Mais do que um simples complemento, o material reuniu versões ao vivo, remixes e faixas adicionais que reforçavam a presença do Sepultura naquele momento de ascensão internacional.

O EP traz Dead Embryonic Cells além de registros ao vivo gravados no show de Barcelona, evidenciando a intensidade da banda no palco e sua rápida conexão com o público europeu. Essas gravações mostram como músicas de Arise ganhavam ainda mais agressividade fora do estúdio, consolidando o grupo como uma força também ao vivo.

Outro destaque é a presença de Drug Me, cover do Dead Kennedys. O título do EP dialoga diretamente com o discurso de identidade e pertencimento que o Sepultura começava a explorar com mais clareza.

Embora nem sempre lembrado entre os principais lançamentos da banda, Third World Posse cumpre um papel importante na consolidação do Sepultura no início dos anos 1990, funcionando como uma extensão promocional de Arise.

Impacto e legado de Arise

Com Arise, o Sepultura atingiu um novo patamar. O álbum foi responsável por expandir a base de fãs da banda fora do Brasil e pavimentou o caminho para o sucesso ainda mais amplo que viria com Chaos A.D. (1993) e principalmente com Roots (1996).

A combinação de agressividade, técnica, premissas da música brasileira, e senso de composição fez do disco uma referência não apenas para o thrash metal, mas também para vertentes mais extremas. Bandas ao redor do mundo passaram a enxergar no Sepultura um exemplo de como unir peso e identidade própria.

Trinta e cinco anos depois, Arise permanece como um retrato fiel de uma banda em ascensão, capturando o momento em que o Sepultura deixou de ser promessa para se tornar protagonista no cenário global do metal.

Curiosidades  

  • O álbum alcançou a posição #119 na Billboard 200.
  • A imagem da capa é Yog-Sothoth, criação de H. P. Lovecraft, ilustrada por Michael Whelan.
  • A música Dead Embryonic Cells aparece no jogo Grand Theft Auto IV: The Lost and Damned, na rádio Liberty City Hardcore (L.C.H.C.), onde Max Cavalera atua como DJ.
  • Paulo Xisto é creditado como baixista no álbum, mas não gravou as linhas de baixo. As partes foram registradas por Andreas Kisser e Max Cavalera.
  • Scott Burns fez a mixagem original do álbum, mas Monte Conner (vice-presidente da Roadrunner Records na época) não ficou satisfeito com o resultado e solicitou uma nova mixagem a Andy Wallace — tudo isso sem o conhecimento da banda.


Fonte: RoadieCrew.com

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