quarta-feira, 29 de abril de 2026

Violator: Contradições, críticas seletivas e o conflito com a realidade

 

No dia 25 de abril de 2026, durante o Bangers Open Air, vivi uma experiência que, mais do que musical, foi profundamente reflexiva. Diante do palco, assistindo ao show do Violator, me deparei com um discurso que, ao mesmo tempo em que denunciava injustiças reais, também revelava contradições difíceis de ignorar.

Em diversos momentos, a banda se posicionou de forma contundente contra a extrema-direita, contra o imperialismo associado a figuras como Donald Trump, denunciando violência, desigualdade social e abandono das populações mais vulneráveis. Até aqui, trata-se de uma crítica legítima — afinal, questionar abusos de poder é parte essencial de qualquer sociedade que se pretenda minimamente justa.

No entanto, em meio à intensidade do show, surgiram frases que ecoaram de forma diferente. Entre uma música e outra, vieram gritos como:

“Eu sei que isso que eu vou dizer agora pode ser polêmico para muita gente aqui, mas a gente precisa falar a verdade…

Solidariedade total aos povos da Venezuela, do Irã e de Cuba, que sofrem com o imperialismo e com as sanções que só punem quem é pobre e trabalhador.”

 


 

Foi nesse momento que a reflexão começou a pesar mais do que o som das guitarras

Porque há uma diferença fundamental entre criticar um sistema e fechar os olhos para outro. A crítica à extrema-direita não pode, automaticamente, transformar qualquer oposição a ela em algo digno de defesa. Essa lógica cria uma armadilha: a substituição do pensamento crítico por uma espécie de fidelidade ideológica

O caso do Irã é talvez o exemplo mais contundente dessa contradição. Em um país onde o Heavy Metal — o mesmo celebrado naquele palco — pode ser tratado como crime, músicos são perseguidos, presos e forçados ao exílio. A banda Confess, por exemplo, teve seus integrantes condenados a mais de 14 anos de prisão e até a chibatadas simplesmente por fazer música considerada blasfema. Outros grupos, como Arsames, chegaram a enfrentar sentenças de até 15 anos de prisão, sendo obrigados a fugir do país para sobreviver.

Ou seja, enquanto um palco no Brasil ecoava gritos de liberdade ao som do Thrash Metal, existiam — e ainda existem — músicos em outros lugares do mundo sendo silenciados exatamente por tocar esse mesmo estilo musical.

Como, então, defender um regime que persegue aquilo que, naquele momento, estava sendo celebrado como expressão máxima de liberdade?


Contradição reveladora!

Essa contradição revela algo maior: a dificuldade de manter coerência em um mundo polarizado. A crítica seletiva — aquela que enxerga os erros de um lado, mas relativiza os do outro — não é, de fato, crítica. É alinhamento. E todo alinhamento cego, cedo ou tarde, entra em conflito com a realidade.

Ser contra abusos da extrema-direita não exige, nem deveria exigir, a defesa de regimes autoritários associados à esquerda. Da mesma forma, criticar governos de esquerda não implica automaticamente apoiar projetos de direita. Essa necessidade de “escolher um lado” é mais emocional do que racional — nasce do desejo de pertencimento, não da busca pela verdade.

A posição mais difícil — e talvez mais honesta — é justamente aquela que recusa essa dicotomia simplista. É possível, sim, rejeitar o autoritarismo, a violência e a opressão independentemente de onde eles venham. É possível ser contra todos os sistemas que, de alguma forma, esmagam a liberdade humana — inclusive aqueles que, no discurso, se dizem libertadores.

O que vivi naquele show não foi apenas um espetáculo musical, mas um retrato claro do nosso tempo: um tempo em que discursos fortes convivem com contradições profundas. E talvez o verdadeiro ato de resistência não seja gritar mais alto por um lado — mas ter coragem de questionar ambos.

Porque, no fim das contas, a liberdade que o Metal sempre representou não combina com censura. Não importa de onde ela venha.


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Fonte: undometalbr.com

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