A história do Rock e do Heavy Metal está repleta de obras que precisaram enfrentar a resistência dos próprios fãs antes de conquistarem o reconhecimento que mereciam. Em alguns casos, a rejeição aconteceu por mudanças radicais de sonoridade. Em outros, por trocas de integrantes, vendas abaixo das expectativas ou simplesmente porque aqueles discos chegaram ao mercado na época errada.
O curioso é que muitos desses trabalhos acabaram envelhecendo melhor do que os álbuns que os ofuscaram em seus respectivos períodos. Décadas depois, o que antes era visto como uma decepção passou a ser tratado como ousadia, criatividade e até mesmo genialidade. Nesta lista, relembramos dez álbuns que enfrentaram resistência quando foram lançados e que hoje ocupam um lugar de destaque entre os clássicos do Rock e do Heavy Metal.
10 — Savatage — Dead Winter Dead (1995)
Quando Dead Winter Dead chegou às lojas, o cenário era extremamente desfavorável para bandas tradicionais de Heavy Metal. O Grunge ainda dominava boa parte da indústria musical, enquanto o Metal extremo atraía a atenção das novas gerações. Além disso, o Savatage ainda tentava se recuperar da perda de Criss Oliva, falecido em 1993, uma tragédia que abalou profundamente a banda e seus fãs.
O álbum também representava mais um passo na transformação artística do grupo. Os elementos progressivos, as passagens orquestrais e a abordagem conceitual afastavam cada vez mais o Savatage de suas raízes mais pesadas. Como consequência, o disco passou quase despercebido fora do círculo dos admiradores mais fiéis.
O tempo, porém, foi extremamente generoso com a obra. Hoje, muitos consideram Dead Winter Dead um dos trabalhos mais importantes da carreira da banda, principalmente por conter “Christmas Eve (Sarajevo 12/24)”, composição que serviria de embrião para o surgimento da Trans-Siberian Orchestra, um dos maiores fenômenos da música sinfônica contemporânea.
9 — King Diamond — The Eye (1990)

Lançado no início de uma década que transformaria completamente o mercado musical, The Eye acabou chegando ao público em um momento pouco favorável para o Heavy Metal tradicional. Apesar de receber avaliações positivas da imprensa especializada, o álbum não alcançou o mesmo impacto comercial de trabalhos anteriores como Abigail, Them e Conspiracy.
A situação foi agravada pelas constantes mudanças de formação e pela dificuldade de manter o impulso conquistado nos anos 80. O disco não gerou a repercussão esperada e acabou encerrando a primeira fase clássica da carreira solo de King Diamond de maneira surpreendentemente discreta. Importante mencionar que “The Eye” sequer teve uma turnê de divulgação.
Com o passar dos anos, entretanto, a percepção mudou radicalmente. Músicas como “Eye Of The Witch” e “Burn” passaram a figurar com frequência nos shows do vocalista, ajudando uma nova geração de fãs a redescobrir o álbum. Atualmente, muitos admiradores o colocam entre os melhores trabalhos de toda a sua discografia.
8 — Rush — Caress Of Steel (1975)

Poucos discos chegaram tão perto de comprometer o futuro de uma banda quanto Caress Of Steel. Após o sucesso moderado de Fly By Night, a gravadora esperava um álbum mais acessível e comercial. O Rush, no entanto, seguiu exatamente na direção oposta, apostando em composições mais longas, complexas e ambiciosas.
O resultado foi uma recepção fria tanto por parte da crítica quanto do público. As vendas ficaram abaixo das expectativas e a turnê subsequente acabou ganhando o apelido de “Down The Tubes Tour”, numa referência bem-humorada ao aparente fracasso do projeto.
Décadas depois, a história seria reescrita. O álbum passou a ser visto como o ponto de partida para a identidade progressiva que transformaria o Rush em uma das bandas mais respeitadas da história do Rock.
7 — Black Sabbath — Born Again (1983)

A simples ideia de ver Ian Gillan substituindo Ozzy Osbourne ou Ronnie James Dio já parecia estranha para muitos fãs do Black Sabbath. Quando Born Again finalmente foi lançado, a reação foi ainda mais polarizada. Embora as composições fossem fortes, a produção extremamente carregada de graves tornou-se alvo de críticas constantes.
Durante anos, o disco foi tratado como uma excentricidade dentro da discografia da banda. Muitos admiradores não conseguiam aceitar totalmente a combinação entre a voz de Gillan e o peso característico do Sabbath.
Com o passar do tempo, entretanto, faixas como “Trashed”, “Disturbing The Priest” e “Zero The Hero” ganharam enorme reconhecimento. Hoje, Born Again é frequentemente lembrado como um dos álbuns mais injustiçados da carreira do grupo e uma importante influência para diversas bandas da geração seguinte.
6 — Iron Maiden — Somewhere In Time (1986)

Após o sucesso monumental de Powerslave e da gigantesca “World Slavery Tour”, muitos esperavam que o Iron Maiden simplesmente repetisse a fórmula vencedora. Em vez disso, a banda decidiu experimentar. O uso de guitarras sintetizadas causou estranhamento imediato em parte dos fãs mais conservadores.
Embora o álbum tenha vendido muito bem, a discussão sobre sua sonoridade acompanhou o disco durante anos. Muitos admiradores acreditavam que o grupo estava se afastando das características que o haviam transformado em uma referência do Heavy Metal.
Hoje, essa visão mudou completamente. Músicas como “Wasted Years”, “Sea Of Madness” e “Caught Somewhere In Time” ajudaram a consolidar o álbum como um dos trabalhos mais criativos e sofisticados da carreira do Iron Maiden.
5 — Judas Priest — Turbo (1986)

Se existe um álbum capaz de dividir opiniões até hoje na discografia do Judas Priest, esse álbum é Turbo. Lançado após os consagrados Screaming For Vengeance e Defenders Of The Faith, o disco apresentou sintetizadores, refrões mais acessíveis e uma estética muito mais próxima do Hard Rock oitentista.
A reação foi imediata. Muitos fãs acusaram a banda de abandonar suas raízes em busca de sucesso comercial. O visual adotado pelos músicos também contribuiu para aumentar a controvérsia.
Entretanto, aquilo que parecia um desvio de rota acabou sendo reavaliado ao longo dos anos. Hoje, músicas como “Turbo Lover” e “Out In The Cold” são consideradas clássicos do repertório do grupo, enquanto o álbum passou a ser visto como uma experiência ousada e extremamente bem executada.
4 — Motörhead — Another Perfect Day (1983)

Poucos álbuns na história do Motörhead provocaram uma reação tão controversa quanto Another Perfect Day. O disco marcou a chegada do guitarrista Brian Robertson, ex-Thin Lizzy, contratado para substituir “Fast” Eddie Clarke. A simples troca já causou desconfiança entre os fãs, mas o verdadeiro choque veio quando o álbum foi lançado.
Diferentemente da sujeira sonora e da agressividade quase punk que caracterizavam os trabalhos anteriores da banda, Another Perfect Day apresentava uma produção mais limpa, guitarras mais elaboradas e uma abordagem consideravelmente mais melódica. Muitos admiradores enxergaram essa mudança como uma descaracterização do grupo. A situação ficou ainda mais delicada porque Robertson possuía uma imagem muito diferente da estética tradicional do Motörhead, o que contribuiu para aumentar a rejeição.
Durante anos, o disco foi tratado como uma espécie de “ovelha negra” da discografia da banda. Entretanto, o tempo revelou qualidades que passaram despercebidas em 1983. Faixas como “Shine”, “Dancing On Your Grave”, “Back At The Funny Farm” e “I Got Mine” demonstraram que o álbum possuía personalidade própria e um nível de composição acima da média. Atualmente, muitos fãs o consideram um dos trabalhos mais injustiçados da carreira de Lemmy Kilmister.
3 — Metallica — Load (1996)

Nenhum outro álbum desta lista gerou uma reação tão explosiva quanto Load. Quando o Metallica surgiu promovendo o disco com cabelos curtos, roupas inspiradas no universo alternativo dos anos 90 e uma sonoridade distante do Thrash Metal que o consagrou, boa parte dos fãs simplesmente entrou em estado de choque.
A polêmica foi muito além da música. As fotografias promocionais, o visual adotado pelos integrantes, assim como diversas declarações concedidas à imprensa alimentaram a percepção de que a banda estava abandonando suas raízes. O fato de o álbum suceder uma sequência formada por Ride The Lightning, Master Of Puppets, …And Justice For All e o chamado “Black Album” apenas aumentou a resistência.
Curiosamente, as críticas direcionadas ao disco raramente se concentravam nas músicas. Com o passar dos anos, canções como “Ain’t My Bitch”, “Until It Sleeps”, “Hero Of The Day” e “King Nothing” recebem análises mais objetivas, sem o peso das expectativas que cercavam o lançamento. Hoje, inclusive entre fãs que continuam preferindo a fase clássica da banda, existe um reconhecimento muito maior da qualidade artística de Load.
2 — Kiss — Creatures Of The Night (1982)

Atualmente tratado por muitos admiradores como o melhor álbum do Kiss nos anos 80, Creatures Of The Night nasceu em circunstâncias extremamente desfavoráveis. A banda atravessava um período de queda de popularidade após trabalhos que dividiram opiniões, como Dynasty, Unmasked e Music From “The Elder”. Decerto, o público parecia cada vez menos interessado no grupo.
Musicalmente, o álbum representava um retorno ao peso e à agressividade. Em tese, era exatamente o tipo de disco que os fãs pediam. O problema é que, quando ele finalmente chegou às lojas, a marca Kiss já havia perdido grande parte do prestígio conquistado durante os anos 70. As vendas ficaram muito abaixo do esperado e a repercussão inicial foi inegavelmente decepcionante para os padrões da banda.
Com o passar do tempo, entretanto, o álbum foi redescoberto. Músicas como “Creatures Of The Night”, “I Love It Loud”, “War Machine” e “Rock And Roll Hell” ajudaram a transformar o disco em um dos registros mais respeitados de toda a carreira do grupo. Hoje, muitos fãs consideram o álbum um clássico absoluto e um exemplo de como qualidade artística nem sempre é suficiente para garantir sucesso imediato.
1 — Guns N’ Roses — Appetite For Destruction (1987)

Pode parecer impossível imaginar isso hoje, mas Appetite For Destruction esteve longe de ser um sucesso instantâneo. Quando foi lançado em julho de 1987, o álbum teve vendas modestas e enfrentou dificuldades para conquistar espaço na mídia. A gravadora acreditava no potencial da banda, mas o mercado ainda não sabia exatamente como reagir à combinação explosiva de Hard Rock, atitude punk e excesso que caracterizava o Guns N’ Roses.
A situação não mudou nem mesmo quando a MTV passou a exibir “Welcome To The Jungle”. Aos poucos, o videoclipe despertou certa curiosidade do público e impulsionou levemente as vendas, mas nada muito promissor. O processo foi lento. Diferentemente de muitos sucessos da época, Appetite For Destruction não explodiu da noite para o dia. Seu crescimento ocorreu gradualmente ao longo de meses.
Quando “Sweet Child O’ Mine” chegou às rádios, a transformação foi definitiva. O álbum alcançou o topo da Billboard, vendeu milhões de cópias e mudou para sempre a história do Rock. Assim, o que começou como um lançamento comercialmente discreto acabou se transformando em um dos discos mais vendidos, influentes e celebrados de todos os tempos. Poucos exemplos representam tão bem a ideia de uma obra que precisou de tempo para ser compreendida quanto Appetite For Destruction.
Conclusão
A história desses dez álbuns mostra que a primeira impressão nem sempre conta toda a história. Alguns foram prejudicados por mudanças de formação, outros por transformações de sonoridade, expectativas irreais dos fãs ou simplesmente pelo contexto do mercado musical. Em comum, todos carregam uma característica rara: sobreviveram ao teste do tempo.
Décadas depois de seus lançamentos, esses discos deixaram para trás as críticas, as desconfianças e até mesmo os fracassos comerciais. O que permaneceu foram as músicas. E, no fim das contas, é justamente isso que transforma um álbum rejeitado em um clássico.
Fonte: Mundometalbr.com
Nenhum comentário:
Postar um comentário