quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Resenha: Kreator – “Krushers Of The World” (2026)

 


No final dos anos 1990, após uma sequência de álbuns que gerou consternação e até ojeriza em parte do público que acompanhava o Kreator, nem o mais otimista dos fãs poderia imaginar que o quarteto chegaria a 2026 como um dos grandes bastiões não apenas da música pesada, mas também como um dos principais representantes do Thrash Metal contemporâneo — estilo que a banda ajudou a moldar, embora tenha se mantido distante dele até o retorno triunfal ocorrido em “Violent Revolution” (2001).

Mas por que iniciar a análise de um novo álbum mencionando a fase dos anos 1990? A resposta é simples: diferentemente de outros nomes clássicos do Thrash Metal, o Kreator não alterou sua sonoridade por motivos mercadológicos. As mudanças foram essencialmente artísticas e carregadas de propósito. Ainda que nem sempre tenham sido assimiladas como Mille Petrozza e seus companheiros esperavam, as expansões musicais e experimentações presentes em discos como “Outcast” (1997) e “Endorama” (1999) desempenharam papel fundamental na consolidação da identidade da banda.

Com o tempo, ficou evidente que o grupo atinge sua máxima potência ao executar Thrash Metal. Ainda assim, muitas das ideias melódicas e experimentais dos anos 1990 acabaram incorporadas a um som mais pesado e veloz, dando origem a uma abordagem renovada do gênero. Esses discos revelam concepções visionárias e mantêm o Kreator como uma força criativa capaz de surpreender a cada lançamento.

O jeito Kreator de ser

Embora parte dos fãs mais antigos ainda carregue o lema “Pleasure To Kill forever”, o 16º álbum de estúdio apresenta identidade própria. O Thrash Metal continua norteando o tracklist, mas os músicos adicionam, em cada composição, uma combinação rica de ideias que passeia pelo heavy metal clássico e avança em direção a territórios ainda pouco explorados. Em certos momentos, essa abordagem pode soar mais contida, mas o Kreator executa esse equilíbrio melhor do que a maioria das bandas com mais de quatro décadas de estrada, unindo agressividade e melodia sem diluir sua essência.

Os alemães chegam a “Krushers Of The World” como uma verdadeira raridade no cenário atual. A banda vive um excelente momento técnico e criativo, fato refletido nas críticas positivas recebidas pelos lançamentos mais recentes. Assim, o quarteto evita rótulos, desafia a si mesmo e entrega álbuns que dialogam com um público cada vez mais amplo. A base de fãs cresce constantemente, e canções recentes já figuram como novos hinos. Faixas como “Violent Revolution”, “Enemy Of God”, “Satan Is Real”, “Hordes Of Chaos” e “666 – World Divided”, assim como tantas outras, são tão aguardadas nos shows quanto os clássicos, impedindo que as apresentações se tornem meros exercícios de nostalgia.

Produtor e músicos perfeccionistas

“Krushers Of The World” foi lançado no último dia 16 de janeiro via Nuclear Blast e a produção ficou novamente a cargo do sueco Jens Bogren, responsável também por “Phantom Antichrist” (2012) e “Gods Of Violence” (2017). Conhecido por desafiar músicos a ultrapassarem seus limites, Bogren não aceita soluções fáceis e isto adiciona camadas ao material. O álbum foi integralmente trabalhado no Fascination Street Studios, espaço que Mille Petrozza já descreveu como uma verdadeira Disneylândia para headbangers. Segundo ele, todos que trabalham no local são fãs de metal, o que cria um ambiente colaborativo e focado em um objetivo comum.

Como o estúdio permite realizar gravação, mixagem e masterização no mesmo espaço, a banda permaneceu ali durante todo o processo, com cada integrante em um quarto individual. Outro fator decisivo para o resultado final foi a pré-produção. Mille Petrozza iniciou o trabalho nas composições em 2022 e amadureceu o material até 2025. Para alguns, pode parecer tempo excessivo, mas o resultado comprova que não há deslizes, tampouco notas fora do lugar. O perfeccionismo se mostrou mais do que acertado.


As mazelas da humanidade

Musicalmente, o álbum carrega o DNA estabelecido pelo Kreator desde o início dos anos 2000, mas, como de costume, apresenta particularidades próprias. A capa criada por Zbigniew Bielak antecipa o conteúdo lírico: as letras mergulham em tudo aquilo que há de desesperador e caótico na sociedade contemporânea.

A faixa de abertura e primeiro single, “Seven Serpents”, oferece um panorama direto dos tempos sombrios em que vivemos. O Thrash Metal surge certeiro, com riffs cortantes, melodia bem dosada, bem como um refrão de fácil assimilação — marca registrada da banda. A letra aborda sete males da humanidade — ruína, violência, arrogância, decadência, preconceito, pecado e ódio — representados como “serpentes em forma humana”. Além disso, há referências ao apocalipse bíblico, aos sete pecados capitais e às sete cabeças da hidra.

“Satanic Anarchy”, descrita por Mille Petrozza como uma metáfora de libertação mental e resistência à opressão, aposta em uma atmosfera sombria que dialoga com seu videoclipe inspirado em Hellraiser. O peso se sobrepõe à velocidade, enquanto o refrão apoteótico e o solo curto, porém eficiente, se destacam como pontos altos.

Possuindo os vivos e os futuros mortos

Diferentemente do padrão adotado desde “Violent Revolution”, a faixa-título não aposta na velocidade extrema. “Krushers Of The World” surge cadenciada e pesada, quase como uma marcha demoníaca rumo ao fim dos tempos. Aqui, Mille Petrozza critica crenças cegas, questiona o custo do progresso e inegavelmente expõe a dificuldade de encontrar pensamento crítico em um mundo globalizado.

“Então, isso é progresso?
Nossas mentes em decadência
Sofremos até alcançar a verdade
Enquanto nos desintegramos

Mas nada pode abalar nossa forte crença
Pois somos os destruidores do mundo”

Tränenpalast” presta homenagem à famosa trilogia do cineasta italiano Dário Argento, focando especialmente em Suspiria e no mito das “três mães”: Mater Tenebrarum, Mater Lachrymarum e Mater Suspiriarum. A faixa conta com a participação da vocalista Britta Görtz (Hiraes) e ganhou um videoclipe visualmente impactante.


“Barbarian” resgata o Thrash Metal raiz, veloz e afiado, com destaque para a bateria precisa de Ventor, que entrega uma performance excepcional ao longo de todo o álbum. O baixista Frédéric Leclercq também se sobressai, contribuindo para uma base rítmica sólida e eficiente. Mantendo o nível de brutalidade elevado, “Blood Of Our Blood” surge como outra composição direta e agressiva, capaz de agradar os fãs old school. A letra aborda o poder do sangue, as linhagens dominantes, assim como o declínio da civilização, convocando a humanidade à rebelião.

“Quando as culturas decaem
Diante da tempestade, obediência significava suicídio
Aqueles que agora nos lideram ainda resistem”

Chamado à guerra

Em sintonia temática com a faixa anterior, “Combatants” certamente funciona como um verdadeiro chamado à guerra. Fica evidente a percepção de Mille Petrozza de que muitos dos problemas atuais derivam da atuação de líderes autoritários. Com uma cadência quase ritualística, a música ergue um grito de união que vem ganhando espaço desde “666 – World Divided”. A mensagem é simples e direta: juntos somos mais fortes.

“Levante seus punhos para o céu
Você não está sozinho, este é o nosso sinal
Enfrentando a tempestade, sobreviveremos
Aconteça o que acontecer
Combatentes dos deuses, lutem por suas vidas”

Próximo ao fim, “Psychotic Imperator” eleva novamente a temperatura com um ataque brutal de Thrash Metal. A banda volta sua mira aos autoritários, opressores e manipuladores que distorcem a ideia de progresso, promovendo censura, confusão e descrença.

“A morte libertadora ecoa nos corredores da tortura
A oposição silenciada na presença de reformadores
Eles afirmam saber o que é melhor para as futuras gerações
Catapultando a juventude para a era da capitulação”

 Deathscream” abre com um grito visceral de Mille Petrozza, funcionando como sinal de ataque imediato. A faixa mantém o punch, a agressividade e o Thrash Metal cortante característicos do Kreator. Não poderia faltar, em um álbum como este, uma crítica ao poder destrutivo da internet e das redes sociais, usadas como ferramentas de alienação.

“Presos em reinos de caos, drama humano
Frustração em massa, mundo virtual de mentiras
Alucine seu Nirvana pessoal
Fatos fabricados para hipnotizar

A bússola da moralidade tornou-se obsoleta
A honestidade está desaparecendo
Engano distópico em um grito de morte”

Encerrando um registro praticamente irretocável, “Loyal To The Grave” resgata elementos apresentados em “Phantom Antichrist”. A faixa aposta em guitarras e vocais mais melódicos, com um refrão grandioso e pouca ênfase em velocidade ou peso extremo. Ainda assim, funciona perfeitamente como desfecho e, em pleno 2026, soa absolutamente natural.

Robusto, criativo e… excelente!

“Krushers Of The World” não sofre com excessos, não se torna cansativo e comprova que a fórmula do Kreator segue longe do esgotamento. Muito disso se deve à inquietude artística de Mille Petrozza e à forma como ele encara a criação musical. Em entrevistas recentes, o frontman destacou que não enxerga um novo álbum como mera obrigação ou ferramenta para manter relevância. Um disco precisa fazer sentido criativo, soar fresco e ocupar um espaço próprio na história da banda.

Dessa maneira, a nova empreitada do Kreator cumpre exatamente o que propõe. Sem deslizes, sem polêmicas e sem mudanças drásticas, o grupo adiciona, em doses precisas, elementos que enriquecem sua musicalidade. Diversas faixas têm potencial para se tornar novas favoritas dos fãs, o que permite afirmar que a missão foi concluída com êxito — ao menos até a chegada do próximo trabalho.

Audição obrigatória… exceto, talvez, para os saudosistas que aguardam há 40 anos um “Pleasure To Kill Part II”.

Nota: 9


 


fonte: Mundometalbr.com.br

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