Antes de entrar propriamente na análise, vale explicar por que esta resenha demorou um pouco mais para sair. O primeiro motivo envolve justamente a enorme expectativa em torno do disco, especialmente no Brasil. Em casos assim, o “calor do momento” costuma gerar avaliações precipitadas e carregadas de empolgação — leia-se: elogios fáceis. Já o segundo motivo diz respeito à mudança sonora adotada pela banda. Quem acompanha a trajetória da Nervosa percebe rapidamente que “Slave Machine” abandona a essência do Thrash Metal mais tradicional para apostar em uma sonoridade moderna, aproximando-se com bastante afinco do Melodic Death Metal.
Uma mudança pensada para o mercado
Essa transformação não aconteceu por acaso. Atualmente baseada na Grécia, a banda se encontra muito mais conectada ao circuito europeu de festivais e grandes turnês. Com o suporte da Napalm Records, a mudança de direcionamento soa estratégica e claramente pensada para ampliar o alcance do grupo em mercados onde estilos mais modernos possuem maior apelo comercial. Dessa forma, “Slave Machine” surge como uma tentativa de consolidar a Nervosa em um novo patamar internacional.
Embora exista uma nova geração resgatando o Thrash Metal old school com ótimos resultados, o mercado europeu continua favorecendo estilos mais acessíveis dentro do universo extremo. Consequentemente, bandas em ascensão acabam adaptando parte de sua identidade para sobreviver dentro desse cenário competitivo. Por isso, o novo álbum dificilmente agradará os fãs mais puristas do gênero. Em contrapartida, o disco provavelmente conquistará ouvintes mais jovens e alinhados à estética moderna do Metal europeu.
Na parte técnica, a produção ficou novamente nas mãos de Martin Furia, guitarrista do Destruction, mas algumas escolhas acabam prejudicando o resultado final. As constantes dobras vocais aplicadas à voz de Prika Amaral, por exemplo, aparecem em excesso e em determinados momentos causam certo desgaste durante a audição. Além disso, a mudança na timbragem das guitarras afeta diretamente a identidade do álbum. Os riffs cortantes e agressivos típicos do Thrash Metal deram espaço para bases mais pesadas e comprimidas, aproximando o som de bandas modernas do Melodic Death Metal. Como consequência, o talento de Helena Kotina acaba subaproveitado. Enquanto “Jailbreak” apresentava solos marcantes e linhas melódicas memoráveis, “Slave Machine” aposta em guitarras mais genéricas e menos inspiradas.

Um começo promissor
Apesar disso, o disco começa de maneira extremamente forte com a sequência formada por “Impending Doom”, “Slave Machine” e “Ghost Notes”. Mesmo dentro da nova proposta sonora, a banda entrega composições empolgantes nesse início. “Impending Doom” traz provavelmente o melhor riff do álbum, além de uma melodia viciante e um refrão extremamente eficiente. Já a faixa-título começa como um verdadeiro ataque de Thrash Metal, mas gradualmente incorpora elementos de Melodic Death Metal sem soar artificial. O resultado funciona muito bem e transforma a música em um dos grandes destaques do trabalho. Em seguida, “Ghost Notes” apresenta uma abordagem ainda mais moderna, antecipando o direcionamento predominante do restante do disco, embora mantenha momentos interessantes.
No entanto, a partir de “Beast Of Burden”, o álbum perde força consideravelmente. A audição passa a alternar entre faixas mornas, previsíveis e pouco inspiradas. Existem bons momentos isolados ao longo do caminho, mas eles não sustentam o mesmo nível apresentado na abertura. “You Are Not A Hero” acaba soando excessivamente genérica, embora os solos de Helena Kotina salvem parte da experiência. Em contrapartida, “Hate” surge como uma das melhores músicas do álbum graças aos ótimos riffs e à agressividade que aproxima um pouco a faixa da identidade clássica da banda.
Entre identidade e modernização
Na reta final, “The New Empire” reforça de vez a nova direção musical da Nervosa, equilibrando passagens de Thrash Metal com trechos claramente influenciados pelo Melodic Death Metal. “30 Seconds” segue a mesma fórmula, enquanto “Crawling For Your Pride” até apresenta boas ideias nas guitarras, mas não consegue elevar o nível do disco. Já “Learn Or Repeat” lembra em diversos momentos bandas como Arch Enemy, levantando inevitavelmente o questionamento sobre a personalidade da Nervosa.
Perto do encerramento, “The Call” aparece como um verdadeiro respiro, recuperando parte da agressividade visceral que sempre caracterizou a banda. Entretanto, o álbum termina com “Speak In Fire”, uma faixa apagada e sem grande impacto, encerrando o trabalho de maneira anticlimática e melancólica.
No fim das contas, “Slave Machine” representa claramente um ponto de transição na carreira da Nervosa. O disco possui potencial para ampliar significativamente o alcance da banda e aproximá-la de um público mais jovem e globalizado. Porém, ao mesmo tempo, sacrifica boa parte da personalidade construída nos trabalhos anteriores. A tentativa de modernização é compreensível dentro do cenário atual da indústria, mas a banda precisará encontrar um equilíbrio mais sólido entre identidade artística e exigências de mercado. Caso contrário, corre o risco de se tornar apenas mais um nome genérico que aponta sua bússola para caminhos convenientes.
Esperava mais…
Fonte: Mundometalbr.com
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